Política nunca foi assunto
simples, tanto por questões de ideologia como pela própria distância da
população em que os eleitos se colocam depois que assumem o cargo. Nas últimas
eleições de 2016, notou-se claro declínio de prefeituras assumidas por partidos petistas, decorrência de constantes aparições na mídia em envolvimentos com
esquemas de corrupção, o que afetando parte do imaginário coletivo que buscou por
mudanças nas urnas – algo a ser buscado também nas eleições presidenciais do
ano que vem. Não que seja assunto simples.
Em especial, tomo como exemplo
São Paulo, a maior cidade do país, que saiu do governo Haddad e agora tem no
cargo o prefeito João Doria. A primeira leitura que se pode fazer é que a
renovação se daria não por partidos – posto que o PSDB está aí há muito tempo,
também envolvido em esquemas de corrupção, incluindo-se gravações em áudio evídeo.
Porém, para o povo paulistano, a tentativa de renovação foi a mesma das
eleições americanas: votar em alguém que não tinha histórico político (supondo
que, com isso, estaria menos propenso a se envolver com corrupção e fazer um
governo melhor do que os políticos de carreira de outrora não fizeram antes).
Com
frequência o presidente Donald Trump está na mídia, não apenas pela boca aberta
– discurso que agrada ao próprio eleitorado – mas principalmente atuando em
redes sociais, como se fosse um cidadão comum. A diferença é que ele comanda a
nação mais poderosa do mundo e não se importa em trocar farpas com o desafeto
norte coreano e com isso estourar uma guerra nuclear. Talvez este seja um ponto
entre políticos de carreira e a renovação por pessoas de fora da política: uns
sabem ser mais diplomatas do que os outros. Serve, também, como maneira de o povo de identificar com aqueles que elegeram, como se eles fossem "gente como a gente" e atuam de forma aparentemente sincera nas redes. Entretanto, a democracia concede a qualquer cidadão a oportunidade de ser presidente (depois de aplicarem certas regras, claro). Simples, ao
mesmo tempo que desconsidera toda a complexidade de uma geopolítica
internacional.
Embicados
Semelhança pode ser traçada no governo Doria, que inclusive hoje foi criticado por membro do próprio partido, mais precisamente, pelo vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, o qual acusa o atual prefeito de São Paulo de ser um dos piores políticos que a cidade já viu. Continua a crítica, em vídeo postado no Facebook, dizendo que a cidade não tem prefeito, que a fila da saúde só cresce e que o prefeito vive de muito marketing e pouco trabalho.
O que é curioso porque o que Doria mais faz é
justamente postagens em redes sociais dizendo o quanto acorda cedo e trabalha
pela cidade, inclusive se colocando em papeis de trabalhadores braçais como
garis, jardineiros e funcionário da zeladoria da prefeitura para não apenas demonstrar inclusão de que está junto a essas pessoas,
mas também para 1) fazer algo que nenhum prefeito antes fez (o que inclui uso e
abuso de redes sociais para espalhar a imagem que vem construindo sobre si
mesmo) ao mesmo tempo que 2) mostra interesse em classes mais baixas de
trabalhadores ao invés de se dedicar a reuniões com empresários e pessoas de
grande poder aquisitivo. Ou seja, é a explanação de Goldman de porquê Doria
vive de muito marketing, com a finalidade de se candidatar à presidência nas
próximas eleições.
Doria rebate dizendo que Goldman é “fracassado e improdutivo” e que vive “de pijamas em casa”. Novamente, ao chamar seu detrator com estes adjetivos, o prefeito de São Paulo se coloca no lugar de 1) alguém que não é fracassado e 2) alguém que é produtivo.
Acima de tudo, Doria rebate não apenas os argumentos que lhe foram lançados, mas também ataca a pessoa que os fizeram. A isso se dá o termo de ad hominem, quando se ataca o pessoal ao invés da ideia a ser debatida.
Doria faz o mesmo jogo de Trump: escancara de um jeito debochado, muito em parte porque é o que o próprio eleitorado dele gostaria de ver. E suponho que daqui em diante as acusações ficarão cada vez maiores, visto a necessidade de estar na mídia para que as pessoas lembrem dele na eleição vindoura, inclusive pelo fato de Doria ter uma grande fanbase na internet, fazendo uso de redes sociais como poucos políticos o fazem. Pudera, Doria veio da televisão (tal qual Trump), sabe o poder que a mídia tem e usa isso a seu favor.
Presidenciáveis eleitos
Não é novidade o imbróglio. São Paulo com frequência elege governadores que antes da metade do mandato entram em campanha presidencial. Igual ocorre com Doria. Imagino que seus fieis eleitores não se importariam com o fato de o prefeito relegar a cidade ao vice, posto que acreditam demais no atual prefeito e o gostariam de ver presidente, como se vestisse a aura da renovação da política.
O que acontece de novidade é o atrito no ninho tucano, com duas grandes figuras desejando concorrer à presidência, a saber: o atual prefeito de São Paulo e o atual governador do estado de São Paulo, ambos do PSDB. Se depender do MBL, eles já têm Doria como preferido, sugerindo que ele deixe o partido – que encontra-se cada vez mais envolto em denúncias de esquemas de corrupção (o que, para muitas pessoas, isso obrigatoriamente torna um partido de esquerda, pois só a esquerda é corrupta para quem pensa assim).
Pronto, resolveria o problema, assim, ambos Doria e Alckmin podem concorrer. Adicione-se ao impasse a fala do vice-presidente do partido contra Doria. O prefeito hoje é a principal figura tucana, eclipsando o próprio padrinho Alckmin. Já o presidente do partido, Aécio Neves, não está em condições de fazer pronunciamentos, dada a situação delicada, o momento é o de ficar na moita.
E nós, como ficamos? Ficamos a ver os embates entre pessoas que deveriam se preocupar com as atuais responsabilidades, mas que preferem alçar voos cada vez maiores em benefício próprio (apesar de jurarem trabalhar no melhor para o povo). É o caso da fala do Obama essa semana no Brasil: “ao invés de pensar no bem coletivo, os governantes estão preocupados em atirar uns nos outros”. A responsabilidade fica terceirizada, as ruas esburacadas e os semáforos apagados.
“Nove meses se passaram e o prefeito ainda não nasceu. A única coisa que nasceu foi um candidato à Presidência da República. Doria não quer ser prefeito.” Goldman, vice-presidente do PSDB
Doria rebate dizendo que Goldman é “fracassado e improdutivo” e que vive “de pijamas em casa”. Novamente, ao chamar seu detrator com estes adjetivos, o prefeito de São Paulo se coloca no lugar de 1) alguém que não é fracassado e 2) alguém que é produtivo.
Goldman de pijama! Quando a velha política derrotada não aceita a nova forma de gestão. pic.twitter.com/RSihiJwCni— João Doria (@jdoriajr) 7 de outubro de 2017
Acima de tudo, Doria rebate não apenas os argumentos que lhe foram lançados, mas também ataca a pessoa que os fizeram. A isso se dá o termo de ad hominem, quando se ataca o pessoal ao invés da ideia a ser debatida.
Doria faz o mesmo jogo de Trump: escancara de um jeito debochado, muito em parte porque é o que o próprio eleitorado dele gostaria de ver. E suponho que daqui em diante as acusações ficarão cada vez maiores, visto a necessidade de estar na mídia para que as pessoas lembrem dele na eleição vindoura, inclusive pelo fato de Doria ter uma grande fanbase na internet, fazendo uso de redes sociais como poucos políticos o fazem. Pudera, Doria veio da televisão (tal qual Trump), sabe o poder que a mídia tem e usa isso a seu favor.
Presidenciáveis eleitos
Não é novidade o imbróglio. São Paulo com frequência elege governadores que antes da metade do mandato entram em campanha presidencial. Igual ocorre com Doria. Imagino que seus fieis eleitores não se importariam com o fato de o prefeito relegar a cidade ao vice, posto que acreditam demais no atual prefeito e o gostariam de ver presidente, como se vestisse a aura da renovação da política.
O que acontece de novidade é o atrito no ninho tucano, com duas grandes figuras desejando concorrer à presidência, a saber: o atual prefeito de São Paulo e o atual governador do estado de São Paulo, ambos do PSDB. Se depender do MBL, eles já têm Doria como preferido, sugerindo que ele deixe o partido – que encontra-se cada vez mais envolto em denúncias de esquemas de corrupção (o que, para muitas pessoas, isso obrigatoriamente torna um partido de esquerda, pois só a esquerda é corrupta para quem pensa assim).
Pronto, resolveria o problema, assim, ambos Doria e Alckmin podem concorrer. Adicione-se ao impasse a fala do vice-presidente do partido contra Doria. O prefeito hoje é a principal figura tucana, eclipsando o próprio padrinho Alckmin. Já o presidente do partido, Aécio Neves, não está em condições de fazer pronunciamentos, dada a situação delicada, o momento é o de ficar na moita.
E nós, como ficamos? Ficamos a ver os embates entre pessoas que deveriam se preocupar com as atuais responsabilidades, mas que preferem alçar voos cada vez maiores em benefício próprio (apesar de jurarem trabalhar no melhor para o povo). É o caso da fala do Obama essa semana no Brasil: “ao invés de pensar no bem coletivo, os governantes estão preocupados em atirar uns nos outros”. A responsabilidade fica terceirizada, as ruas esburacadas e os semáforos apagados.


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