segunda-feira, 9 de outubro de 2017

MBL x Agências de fact checking

     Não acompanho o MBL, tanto é que o post é de meses atrás mas apenas agora tomei conhecimento dele. Cada frase é carregada de fortíssima ideologia, algo que muito agrada aos fieis leitores e pessoas que acompanham a página. A ver:


      De cara, chama a Agência Pública de "blog de extrema-esquerda". É bem verdade que, ao acessar a página Quem Somos do site, ao final dela, é disponibilizada uma lista de outros sites que republicam o material produzido pela Pública. Dentre esses, estão presentes aqueles que abertamente se definem como simpáticos à esquerda do espectro político (embora o termo extrema-esquerda, conforme postado pelo MBL, seja incoerente). Porém, ao continuar a lista, surgem outros sites e portais de notícia que não necessariamente são associados à esquerda, a exemplo do El País Brasil, da Revista Exame, do Huffpost Brasil, do Papo de Homem e do próprio UOL. Não seria surpresa, porém, se os próprios militantes pró-MBL descaracterizassem tais portais como sendo estes também de esquerda. 

     Entretanto, quanto à própria Pública, não existe tonalidade comprovada de que se trata de um blog de extrema-esquerda. Afinal, o que caracterizaria um meio do tipo? Incitar a revolução do proletariado e a tomada dos meios de produção? Eu não enxergo isso em post algum, mas se alguém quiser me mostrar, fique à vontade nos comentários.

     Sobre o financiamento da Pública por George Soros, a própria agência fez um post em que chama a informação de fake news. Aliás, se jogar no Google "george soros pública" aparece um caminhão de blogs e artigos pessoais, abertamente considerados de direita e/ou liberais e/ou conservadores, denunciando o financiamento de Soros sobre como ele quer que a (extrema-)esquerda pense e aja, cuja finalidade é a promoção do globalismo. Exemplos podem ser encontrados aqui, aqui e aqui.

     O que é curioso, pois, durante muito tempo (até hoje, na verdade) existe no discurso da esquerda a denúncia de que os EUA financiam ditaduras em todo o mundo, bem como o Golpe Militar de 64 que aconteceu no Brasil. Dizem, continuam, que os norte-americanos têm um plano de imperialismo a ser implantado por aqui. E desde então este discurso é deslegitimado, é tido como falso, que é teoria da conspiração. Aí o jogo vira e pessoas ligadas à direita vêm denunciar financiamento vindo de um bilionário com o intuito de promover a (extrema-)esquerda. Então de um lado pode existir a denúncia, ela é legítima, mas do outro não. Parece que só um tem o mérito de estar certo. Vai de você escolher qual lado, com base nas evidências que encontrar.

     O post segue, dizendo que "fact checking é outro nome para censura". É notável a censura ao fact checking, quando esta tem se mostrado uma tendência por conta da quantidade de informações veiculadas em redes sociais, tendo elas mesmas buscado formas de combater a disseminação de inverdades. Imagino eu que censura seja decorrente da falta de informação, ao invés de checarem o grau de veracidade que nela contém. Entretanto, isto não basta para o post do MBL, que faz uso de instrumentos de censura enquanto denuncia-a onde não existe, a exemplo do grande debate sobre fechar museus. Assim, enquanto a censura for por parte do meu oponente, eu posso criticar. Se eu o fizer, não tem problema aparente.


      Na frase seguinte, reiteram o termo "extrema-esquerda", adicionando-se o adjetivo "corrupta" (pois, conforme mentalidade, apenas a esquerda é capaz de promover corrupção) e que não tem moral para cobrar fatos. Em se tratando de uma agência, é dever dela cobrar fatos. Ao mesmo tempo, aquele que fora cobrado tem o direito de não os revelar. Agora, chamar de censura quem quer botar uma ordem no caos, isso sim parece extremo. Mas aí que está. É uma ordem da qual o MBL não concorda, e que, por isso, desde sua concepção enquanto meio de veiculação, já está descaracterizado como crível e legítimo. É o mesmo movimento que o presidente Donal Trump faz da CNN: "se eu não gosto do que você diz sobre mim, então você é fake news" - mesmo quando o que está em jogo são fatos reais.


     Encerra o post chamando a agência de seguir uma "agenda covardes ditadores criminosos". Não vou entrar no mérito sobre covardes ditadores criminosos. Tal qual o assunto do museu, a internet não aguenta mais essa discussão e as pessoas já têm suas opiniões formadas.

Escolha o seu deus

     Na verdade, as opiniões e posições já existem antes mesmo do diálogo (sic). Pois aí está um ponto nevrálgico do poder que a democrática liberdade da internet nos concede. A saber: o poder de acreditar no que você quiser. As nossas bolhas ideológicas nos encerram. Não queremos discutir com o outro, afinal, esse termo (discussão) há muito não tem mais valor. Como a internet nos serve de grande palanque e o humano é egocêntrico por natureza, a nossa única finalidade não é a de discutir, conflitar ideias e tirar um denominador comum entre elas. Mas sim, apenas, ter a última palavra. A discussão nada mais é do que uma exposição de pontos de vistas na qual, ao encerrar, todos retornam às próprias bolhas, sem acrescer nada quanto à fala daquele que lhe opõe (embora você esteja convidado a discutir, observando-se o significado da palavra, nos comentários).

    De mesmo artifício promove o MBL em posts e incitações. Ele descaracteriza aquilo que não lhe convém, abusando de termos como "extrema-esquerda" em lugares onde não necessariamente existe tanto viés ideológico. E assim convivemos nessa selva digital-ideológica em que todos queremos ter razão pois o outro está sempre errado.


     Quanto às agências, por elas serem taxadas "de esquerda", por si só desmerece todo o trabalho, conforme pensamento. A verdade fica enviesada, tanto pelas agências, quanto pelos leitores, tendendo a acreditar mais ou menos no que lhes é oferecido. Surge a minha ideia: realidade é um conceito que sempre foi difícil, mas que agora torna-se cada vez mais complexo. Ela nunca fora uma coisa só, dependente de mera observação do mundo, mas sim, da forma com que nós o construímos. 

     O que acontece de novidade é a quantidade de informação que nos chegam, já ideologicamente enviesadas, que influenciam na nossa (des)caracterização daquilo que é real/verdadeiro ou não. No final das contas, acreditamos apenas naquilo que queremos, independente de você ser de esquerda, de direita, liberal ou conservador. 

     2018 tem eleições. 

     Mais uma guerra civil online desponta no horizonte.

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