quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Obama no Brasil e o bom senso




     Agora mesmo o ex-presidente dos EUA Barack Obama participa de evento em São Paulo, o Fórum Cidadão Global. No momento, na seção de perguntas e respostas, ele diz que muitos dos problemas vividos em diversos países, quaisquer que sejam, ocorrem não por falta de técnica. Por exemplo, de lugares que convivem com a fome, não lhes faltam a melhor semente ou o melhor jeito de colher etc. O problema, para o presidente, é que ao invés de as pessoas plantarem elas estão atirando umas nas outras. E então seguiu-se uma fala sobre divergências políticas que acometem a todas as democracias (sabidamente, conforme Churchill, sendo este o pior modelo de governo, exceto por todos os outros).

     A fala do ex-presidente pode ser resumida em duas palavras: bom senso. É simples de se pensar. Se as pessoas que tem o poder de agir resolvessem fazê-lo, elas agiriam em prol de melhorias. Mas quem são essas pessoas? Políticos, apenas? 

     Alguém pode acreditar que sim. Porém, estamos numa democracia (apesar de tudo). A participação popular é importante, não restrita a cada 2 anos quando são convocados (obrigatoriamente) a votar (em pessoas que passam o mandato desdenhando do eleitor para, no período de campanha, pedir um voto de confiança. Não raro existem casos de políticos que repetem a mesma fórmula há décadas). 

     Afinal, políticos são nossos funcionários, trabalham para a população e principalmente para seus eleitores – embora, quando eleitos, façam de tudo para parecer que é o contrário. Por que não temos essa consciência de participação popular fora do período de eleições?


A democracia não começou ontem, mas parece que sim
     Talvez pelo conceito de democracia ser recente tanto quanto o período da humanidade sobre a terra. Séculos de existência ainda parecem insuficientes quando se pensa na total linha do tempo. 

     Em especial, ao trazer a questão para o Brasil, a nossa democracia é jovem, o que dificulta mais ainda entender qual é o papel de cada um (tanto na primeira república como na redemocratização de '85). Sem contar a nossa história exploradora, oriunda de portugueses colonizadores que detinham de poder tecno-financeiro. Seguiram-se o coronelismo e voto de cabresto, que nada mais são (ainda hoje) do que atualizações dos moldes antigos. Não se vota naquele que faria melhor para a população, mas sim naquele que te intimida a votar nele, porque ele pode te fazer mal caso contrário, sendo mais comum em lugares interioranos em que questões políticas ainda são definidas na bala (o Brasil não é só a metrópole em que nós vivemos com internet).

     A exploração de classes oprimidas está no DNA do brasileiro. E por oprimidos digo de todo mundo que não tem grande poder, o que, sim, inclui toda a classe média, embora ela não acredite nisso (que está no mesmo patamar das ditas classes inferiores e que todos fazem parte do “povo” que podem mudar o país – mas preferem não o fazer por acreditarem que, por terem uma vida razoavelmente confortável, ou seja, singelo poder financeiro, isso não lhes é problema).

     O que vai ao encontro do começo do texto: é uma questão muito óbvia de bom senso. Mas para quem? Para quem se perpetua no poder, não é bom senso, afinal, eles perderiam tudo o que conquistaram, por piores que fossem os métodos. Ainda mais considerando a polaridade americana da qual vem Obama: o que é de bom senso para um democrata não é igual para um republicano e vice-versa. 

     Igual pensamento cabe para o Brasil de há pouco: para quem se considera anti-petista, bom senso se resume em tirar o PT do poder. Para quem apoiava os sucessivos governos que seguiam há mais de década, bom senso é não deixar que uma extrema direita tomasse poder, com mentalidade neoliberal privatizadora (e aí cada um dos dois lados tem enorme montante de argumentações que não cabem aqui).

     O que seria de bom senso para a classe do povo também não é consensual, visto que a classe média pensa diferente de classe mais pobres. Ninguém quer perder direitos e nem se preocupa com deveres. Bom senso por quê? 

Se você pede bom senso a outra pessoa, isso significa que, pelo seu ponto de vista, ela não o tem, ao mesmo tempo que você seguramente tem, desconsiderando que todos possuem jeitos diferentes de pensar. É quase que uma agressão psicossocial.
 
     Aí as coisas ficam do jeito que se vê. Todo dia a política frustra os eleitores, mas ao que parece não existe alternativa – a menos que você escolha um ponto mais extremo, afinal, todos os atuais focos de discussão política (quando existem) são questionáveis. Estamos confusos, parece não haver saída. E principalmente, estamos todos separados em blocos de raciocínio, bolhas ideológicas. 

Pós-população e movimentos democráticos

     Reclama-se da desunião do povo, mas recentemente quando este tentou se reunir não deu muito certo. O impeachment de ’92 afastou o presidente que logo mais teve o nome associado à Lava-Jato. As manifestações de 2013 deram um fôlego, acreditaram que agora tomar-se-ia consciência política e social visando bom senso. Mas o gigante tropeçou e entrou em coma. Vieram as manifestações de 2016, das quais hoje muitos que participaram se arrependem de terem apoiado. Criticaram governo petista – que não era santo – às cegas, enquanto serviam de massa de manobra do MBL para apenas tirar o PT da presidência ao invés de buscar um país melhor (embora lhes dissessem que era este o motivo, enquanto hoje vemos os 3% de aprovação do governo Temer). Menos ainda, em 2016, buscava-se o cálice sagrado do bom senso. 

      Que aliás, nunca importou para quem detinha de poder, seja de políticos, seja de nós, o povo. Nem interessa até agora. De agora até as eleições do ano que vem, partidos políticos vão desfilar suas propagandas na televisão e na internet, convocando participação de jovens, de mulheres, de negros. Usarão palavras como “renovação”, farão uso de tom otimista. E no final, o eleitor é feito de otário, porque está dividido e é, em maioria, analfabeto político. Este é o plano de poder que existe há mais de 500 anos por aqui. O bom senso é o óbvio que ninguém quer enxergar.

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