Agora mesmo o ex-presidente dos
EUA Barack Obama participa de evento em São Paulo, o Fórum Cidadão Global. No
momento, na seção de perguntas e respostas, ele diz que muitos dos problemas
vividos em diversos países, quaisquer que sejam, ocorrem não por falta de técnica.
Por exemplo, de lugares que convivem com a fome, não lhes faltam a melhor
semente ou o melhor jeito de colher etc. O problema, para o presidente, é que
ao invés de as pessoas plantarem elas estão atirando umas nas outras. E então
seguiu-se uma fala sobre divergências políticas que acometem a todas as
democracias (sabidamente, conforme Churchill, sendo este o pior modelo de governo, exceto por todos os outros).
A fala do ex-presidente pode
ser resumida em duas palavras: bom senso. É simples de se pensar. Se as pessoas
que tem o poder de agir resolvessem fazê-lo, elas agiriam em prol de melhorias. Mas
quem são essas pessoas? Políticos, apenas?
Alguém pode acreditar que sim.
Porém, estamos numa democracia (apesar de tudo). A participação popular é importante,
não restrita a cada 2 anos quando são convocados (obrigatoriamente) a votar (em pessoas que passam o mandato desdenhando do eleitor para, no período
de campanha, pedir um voto de confiança. Não raro existem casos de políticos
que repetem a mesma fórmula há décadas).
Afinal, políticos são nossos funcionários,
trabalham para a população e principalmente para seus eleitores – embora,
quando eleitos, façam de tudo para parecer que é o contrário. Por que não temos
essa consciência de participação popular fora do período de eleições?
A democracia não começou ontem, mas parece que sim
Talvez pelo conceito de
democracia ser recente tanto quanto o período da humanidade sobre a terra. Séculos
de existência ainda parecem insuficientes quando se pensa na total linha do
tempo.
Em especial, ao trazer a questão para o Brasil, a nossa democracia é
jovem, o que dificulta mais ainda entender qual é o papel de cada um (tanto na primeira república como na redemocratização de '85). Sem contar
a nossa história exploradora, oriunda de portugueses colonizadores que detinham
de poder tecno-financeiro. Seguiram-se o coronelismo e
voto de cabresto, que nada mais são (ainda hoje) do que atualizações dos moldes antigos. Não se vota naquele que faria melhor para a população, mas sim
naquele que te intimida a votar nele, porque ele pode te fazer mal caso contrário, sendo mais comum em lugares interioranos em que questões políticas ainda são definidas na bala (o Brasil não é só a metrópole em que nós vivemos com internet).
A exploração de classes oprimidas
está no DNA do brasileiro. E por oprimidos digo de todo mundo que não tem grande
poder, o que, sim, inclui toda a classe média, embora ela não acredite nisso (que
está no mesmo patamar das ditas classes inferiores e que todos fazem parte do “povo”
que podem mudar o país – mas preferem não o fazer por acreditarem que, por
terem uma vida razoavelmente confortável, ou seja, singelo poder financeiro,
isso não lhes é problema).
O que vai ao encontro do começo
do texto: é uma questão muito óbvia de bom senso. Mas para quem? Para quem se
perpetua no poder, não é bom senso, afinal, eles perderiam tudo o que
conquistaram, por piores que fossem os métodos. Ainda mais considerando a
polaridade americana da qual vem Obama: o que é de bom senso para um democrata não
é igual para um republicano e vice-versa.
Igual pensamento cabe para o
Brasil de há pouco: para quem se considera anti-petista, bom senso se resume em tirar o PT
do poder. Para quem apoiava os sucessivos governos que seguiam há mais de
década, bom senso é não deixar que uma extrema direita tomasse poder, com
mentalidade neoliberal privatizadora (e aí cada um dos dois lados tem enorme
montante de argumentações que não cabem aqui).
O que seria de bom senso para a
classe do povo também não é consensual, visto que a classe média pensa
diferente de classe mais pobres. Ninguém quer perder direitos e nem se preocupa
com deveres. Bom senso por quê?
Aí as coisas ficam do jeito que
se vê. Todo dia a política frustra os eleitores, mas ao que parece não existe
alternativa – a menos que você escolha um ponto mais extremo, afinal, todos os
atuais focos de discussão política (quando existem) são questionáveis. Estamos confusos,
parece não haver saída. E principalmente, estamos todos separados em blocos de
raciocínio, bolhas ideológicas.
Pós-população e movimentos democráticos
Reclama-se da desunião do povo, mas recentemente quando este tentou se reunir
não deu muito certo. O impeachment de ’92 afastou o presidente que logo mais
teve o nome associado à Lava-Jato. As manifestações de 2013 deram um fôlego,
acreditaram que agora tomar-se-ia consciência política e social visando bom
senso. Mas o gigante tropeçou e entrou em coma. Vieram as manifestações de
2016, das quais hoje muitos que participaram se arrependem de terem apoiado. Criticaram
governo petista – que não era santo – às cegas, enquanto serviam de massa de
manobra do MBL para apenas tirar o PT da presidência ao invés de buscar um país melhor (embora lhes dissessem que era este o motivo, enquanto hoje vemos os 3% de aprovação do governo Temer). Menos ainda, em 2016, buscava-se o cálice sagrado do bom senso.
Que aliás, nunca importou para quem
detinha de poder, seja de políticos, seja de nós, o povo. Nem interessa até agora. De agora até as eleições do ano que
vem, partidos políticos vão desfilar suas propagandas na televisão e na
internet, convocando participação de jovens, de mulheres, de negros. Usarão
palavras como “renovação”, farão uso de tom otimista. E no final, o eleitor é
feito de otário, porque está dividido e é, em maioria, analfabeto político. Este é o plano
de poder que existe há mais de 500 anos por aqui. O bom senso é o óbvio que
ninguém quer enxergar.



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