quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Urnas Eletrônicas

     Agora pela manhã acontece um tuitaço. No segundo lugar dos trending topics, a hashtag #VotoImpressoSim conta com grande número de adeptos à ideia de questionar a urna eletrônica utilizada nas votações que ocorrem de 2 em 2 anos. É verdade que um dos pilares da democracia é a liberdade de expressão, algo que encontra não apenas lugar, mas inclusive, possibilidade de expansão e de atingir um grande número de pessoas via internet.

     Ao clicar na tag, você pode imaginar o que encontraria por ali: pessoas descrentes não apenas na urna eletrônica mas também nos governos e governantes que dela saíram. Mais precisamente, em suma, são perfis ligados à direita que criticam a esquerda. Pudera, um dos grandes combatentes da urna eletrônica nos moldes atuais é um dos grandes ídolos da direita, Jair Bolsonaro.

     Quem está certo, então, em mais esse embate direita x esquerda? Ninguém. Na verdade, enquanto o problema da política brasileira for esse reducionismo entre lado de lá e lado de cá, nada vai mudar, independente das suas intenções e das suas crenças. Política não se reduz em um pensamento ser melhor que outro. Ainda assim, na questão das urnas, é sempre válido questionar o status quo. Isso sim tem mérito. O que eu gostaria de trazer, porém, é o jeito em que esse questionamento tem sido feito, no caso, pela direita. 

     Assim, o discurso ideológico fica fortemente enviesado. Não se trata apenas de uma questão sobre urnas, e sim, sobre governos, principalmente petistas, que foram eleitos pelas urnas . Então, surgem pérolas como essa abaixo que chama as urnas de “bolivarianas”, seguido de uma legenda que garante a facilidade em ser fraudada (com qual base, não se sabe). Inclusive, diz que o "Brasil" não confia nas urnas, como se fosse uma coisa só, um pensamento único que unisse todas as pessoas.



Nada é real, tudo é permitido

     Aliás, quanto à seguridade das urnas eletrônicas, não se tem muita certeza. Quem é pró-urna jura de pés juntos que o software dela é inviolável, inclusive pelo fato de não ser ligado à internet, o que impossibilita(ria) ser hackeada. Periodicamente, testes são feitos com elas, inclusive auditados por profissionais da tecnologia, embora também não seja suficiente para quem não confia nas urnas. Só agora, depois de tantas eleições de governos petistas à presidência, aumenta-se o rumor da falta de confiança e de manipulação nos dados (como se os votos em papel fossem mais seguros, tais quais antigamente. Olha a segunda eleição do presidente Bush, a bagunça que foi). O recorte ideológico polarizador reducionista volta a mais esse ponto: se você é pró urna você é de esquerda, se você for contra você é de direita. 

     Quem garante qual ponto tem mais razão? Ninguém. Enquanto houver pessoas envolvidas, sempre existirá possibilidade de qualquer tipo de fraude ou manipulação ou simples erro. Afinal, a política e feita de pessoas. E pessoas agem conforme melhor lhe convir, quando possível, caso ninguém descubra. Apoiar às cegas um lado ou outro é tão prejudicial quanto desviar dinheiro de merenda (porque uma coisa leva à outra). Tão ruim quanto é a propagação de, se não inverdades, verdades inconsistentes, sem fontes. A imagem compartilhada diz que a urna é facilmente fraudada. Mas de onde a pessoa tirou isso? Ora, estamos na internet. O que vale é uma mensagem carregada que possa atingir um grande número de pessoas e então ser repassada. E mesmo que se colocasse uma fonte, qual a credibilidade dela? Quem leria esse texto? Quem fez esse teste, foi a equipe de TI do governo? Para algumas pessoas só isso já descaracterizaria toda credibilidade do experimento.

     Às quase vésperas das eleições, o assunto retorna de tempos em tempos, a exemplo do projeto de lei (PL 5735/2013) para imprimir o voto da urna eletrônica, como tentativa de assegurar o voto caso seja necessário confrontar o que diz o resultado virtual em comparação ao impresso (ao custo de R$2,5 bilhões, um gasto necessário e irrelevante para os apoiadores da ideia). Não raro o projeto é atribuído ao citado deputado, seja por aqueles que lhe são simpatizantes (no sentido de, com isso, não me se elegerem presidentes petistas, independente de um dos autores da PL ser do PT) ou de seus detratores (que apontam os gastos de bilhões desnecessários).

Tecnosociedade

     Faz pensar no quanto nós ainda temos receio de lidar com dados virtuais, no sentido de que apenas o que está registrado em papel tem valor e que seria inviolável (como se votos de papel não pudessem sumir ou sofrerem modificações, serem reimpressos etc). De outro lado, conforme citação no link acima, na fé nas máquinas, que "não são nem democratas nem republicanas [o que garantiria imparcialidade na contagem de votos]". Há pouco a carteira de motorista foi aceita em formato digital, não seria mais preciso mostrar o impresso – e se você não estiver com ele, pode puxar do celular. Ainda hoje existe receio de se utilizar internet banking, embora muita gente o faça pela comodidade, quando na verdade a internet é um lugar pouco seguro se você não souber por onde andar nela. Para muitos, só o impresso salva, carimbado, em três vias. Bem burocrático.

     Outra questão das urnas é o vira-latismo (embora confesso que eu também cometa desse delito em outras instâncias), no sentido de “só o Brasil usa a urna eletrônica (sic) enquanto outros países sequer aceitaram o nosso modelo ou fizeram outros melhores. Qual o intuito de se manter uma urna de primeira geração quando já existem urnas de segunda e de terceira geração? Só o Brasil ainda usa a de primeira geração”. Apesar da discussão, e de nos rebaixarmos perante o mundo, a urna eletrônica é inovação tecnológica brasileira (embora de qualidade controversa). Ao mesmo tempo, tem como grande mérito a possibilidade de no mesmo dia já saber do resultado, enquanto outros países levam semanas. Ainda assim, nada justifica. A urna é acusada de favorecer governos petistas por aqueles que são contrários a esse governo - embora o mesmo não ocorra no estado de SP que elege governadores tucanos há décadas ininterruptamente.



    Em quem confiar? Quem está certo? Todo mundo e ninguém. Não tenho como escolher, e não é apenas uma questão de ficar em cima do muro. Entendo ambos os argumentos e só confio em coisas que eu tenho certeza por conta de eu participar ativamente na questão – mas aí é uma insegurança minha, e política não se faz no individual e sim pelo coletivo. O que não é muito diferente do reducionismo esquerda x direita, eu x eles. Nesse caso ainda é pior pela inflação de bolhas ideológicas – inclusive via perfis bots de redes sociais – que podem, em qualquer aspecto, influenciar toda uma eleição, dado o poder de alcance de redes sociais. E a gente achando que o nosso maior problema tecnológico era a urna.

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