Agora pela manhã acontece um
tuitaço. No segundo lugar dos trending topics, a hashtag #VotoImpressoSim conta
com grande número de adeptos à ideia de questionar a urna eletrônica utilizada
nas votações que ocorrem de 2 em 2 anos. É verdade que um dos pilares da
democracia é a liberdade de expressão, algo que encontra não apenas lugar, mas inclusive,
possibilidade de expansão e de atingir um grande número de pessoas via
internet.
Ao clicar na tag, você pode
imaginar o que encontraria por ali: pessoas descrentes não apenas na urna
eletrônica mas também nos governos e governantes que dela saíram. Mais precisamente,
em suma, são perfis ligados à direita que criticam a esquerda. Pudera, um dos
grandes combatentes da urna eletrônica nos moldes atuais é um dos grandes
ídolos da direita, Jair Bolsonaro.
Quem está certo, então, em mais
esse embate direita x esquerda? Ninguém. Na verdade, enquanto o problema da
política brasileira for esse reducionismo entre lado de lá e lado de cá, nada
vai mudar, independente das suas intenções e das suas crenças. Política não se
reduz em um pensamento ser melhor que outro. Ainda assim, na questão das urnas,
é sempre válido questionar o status quo. Isso sim tem mérito. O que eu gostaria
de trazer, porém, é o jeito em que esse questionamento tem sido feito, no caso,
pela direita.
Nada é real, tudo é permitido
Aliás, quanto à seguridade das
urnas eletrônicas, não se tem muita certeza. Quem é pró-urna jura de pés juntos
que o software dela é inviolável, inclusive pelo fato de não ser ligado à internet, o que impossibilita(ria) ser hackeada. Periodicamente, testes são feitos com elas, inclusive auditados por profissionais da tecnologia, embora também não seja suficiente para quem não confia nas urnas. Só agora, depois de tantas eleições de
governos petistas à presidência, aumenta-se o rumor da falta de confiança e de
manipulação nos dados (como se os votos em papel fossem mais seguros, tais
quais antigamente. Olha a segunda eleição do presidente Bush, a bagunça que
foi). O recorte ideológico polarizador reducionista volta a mais esse ponto:
se você é pró urna você é de esquerda, se você for contra você é de direita.
Quem garante qual ponto tem mais razão? Ninguém. Enquanto houver pessoas
envolvidas, sempre existirá possibilidade de qualquer tipo de fraude ou
manipulação ou simples erro. Afinal, a política e feita de pessoas. E pessoas
agem conforme melhor lhe convir, quando possível, caso ninguém descubra. Apoiar
às cegas um lado ou outro é tão prejudicial quanto desviar dinheiro de merenda
(porque uma coisa leva à outra). Tão ruim quanto é a propagação de, se não
inverdades, verdades inconsistentes, sem fontes. A imagem compartilhada diz que
a urna é facilmente fraudada. Mas de onde a pessoa tirou isso? Ora, estamos na
internet. O que vale é uma mensagem carregada que possa atingir um grande
número de pessoas e então ser repassada. E mesmo que se colocasse uma fonte,
qual a credibilidade dela? Quem leria esse texto? Quem fez esse teste, foi a
equipe de TI do governo? Para algumas pessoas só isso já descaracterizaria toda
credibilidade do experimento.
Às quase vésperas das eleições, o
assunto retorna de tempos em tempos, a exemplo do projeto de lei (PL 5735/2013)
para imprimir o voto da urna eletrônica, como tentativa de assegurar o voto
caso seja necessário confrontar o que diz o resultado virtual em comparação ao
impresso (ao custo de R$2,5 bilhões, um gasto necessário e irrelevante para os
apoiadores da ideia). Não raro o projeto é atribuído ao citado deputado, seja
por aqueles que lhe são simpatizantes (no sentido de, com isso, não me se
elegerem presidentes petistas, independente de um dos autores da PL ser do PT)
ou de seus detratores (que apontam os gastos de bilhões desnecessários).
Tecnosociedade
Faz pensar no quanto nós ainda
temos receio de lidar com dados virtuais, no sentido de que apenas o que está
registrado em papel tem valor e que seria inviolável (como se votos de papel não pudessem sumir ou sofrerem modificações, serem reimpressos etc). De outro lado, conforme citação no link acima, na fé nas máquinas, que "não são nem democratas nem republicanas [o que garantiria imparcialidade na contagem de votos]". Há pouco a carteira de motorista foi
aceita em formato digital, não seria mais preciso mostrar o impresso – e se
você não estiver com ele, pode puxar do celular. Ainda hoje existe receio de se
utilizar internet banking, embora muita gente o faça pela comodidade, quando na
verdade a internet é um lugar pouco seguro se você não souber por onde andar
nela. Para muitos, só o impresso salva, carimbado, em três vias. Bem burocrático.
Outra questão das urnas é o
vira-latismo (embora confesso que eu também cometa desse delito em outras
instâncias), no sentido de “só o Brasil usa a urna eletrônica (sic) enquanto outros países sequer
aceitaram o nosso modelo ou fizeram outros melhores. Qual o intuito de se
manter uma urna de primeira geração quando já existem urnas de segunda e de
terceira geração? Só o Brasil ainda usa a de primeira geração”. Apesar da
discussão, e de nos rebaixarmos perante o mundo, a urna eletrônica é inovação
tecnológica brasileira (embora de qualidade controversa). Ao mesmo tempo, tem
como grande mérito a possibilidade de no mesmo dia já saber do resultado,
enquanto outros países levam semanas. Ainda assim, nada justifica. A urna é acusada de favorecer governos petistas por aqueles que são contrários a esse governo - embora o mesmo não ocorra no estado de SP que elege governadores tucanos há décadas ininterruptamente.
Em quem confiar? Quem está certo?
Todo mundo e ninguém. Não tenho como escolher, e não é apenas uma questão de
ficar em cima do muro. Entendo ambos os argumentos e só confio em coisas que eu
tenho certeza por conta de eu participar ativamente na questão – mas aí é
uma insegurança minha, e política não se faz no individual e sim pelo coletivo.
O que não é muito diferente do reducionismo esquerda x direita, eu x eles. Nesse
caso ainda é pior pela inflação de bolhas ideológicas – inclusive via perfis bots
de redes sociais – que podem, em qualquer aspecto, influenciar toda uma
eleição, dado o poder de alcance de redes sociais. E a gente achando que o
nosso maior problema tecnológico era a urna.


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