terça-feira, 3 de outubro de 2017

Clubes UNESCO, Larissa Manoela e Veja

    Mesmo depois de 24h o Google Trends ainda indica, nas notícias mais populares dos últimos momentos, a incongruência de informações envolvendo a atriz-mirim Larissa Manoela e o suposto título que recebera da UNESCO. É possível entender qual foi a leitura da situação. No Twitter, ela postou a seguinte imagem:

    Batendo o olho, entende-se a leitura de [Unesco] ao invés de [Clubes Unesco]. Pudera, estão em linhas diferentes. Quem trabalha com publicidade sabe desse tipo de coisa, ou deveria saber, a exemplo de como o nosso olhar varre as linhas enquanto produz leituras e interpretações. Bom, se um nome composto está em linhas diferentes talvez não seja mesmo composto, seria o pensamento.

     Acontece que tem muita diferença entre uma e outra entidade (a primeria ligada à ONU e a segunda sendo uma ONG. Não confundir também as siglas de três letras). Mas estamos na internet, as informações são tão valiosas como são efêmeras. Quanto ao jornalismo (sic), se hoje é cada vez mais difícil dar um furo, por outro lado, aumentam-se as chances de se dar uma barrigada (ou seja, de se precipitar e fornecer informação incorreta, geralmente por pressa e falta de apuração ao invés de mau-caratismo). E foi o que aconteceu com Veja, desmentida pelo próprio perfil da Unesco (da ONU):

    Depois a atriz corrigiu-se na própria rede social, bem como a notícia do site de Veja foi passível de edição. Mas se olhar a miniatura do tweet, a linha fina ainda traz referência ao órgão da ONU. O tweet continua lá, apesar de incorreto.

     Mais do que isso, diversos blogs de entretenimento replicaram a notícia. Partindo do próprio Google Trends citado, o agregador me levou a esses sites que continham informações pela metade. Diziam, nos que vi, que ela se enganara quanto à premiação... e só. Nenhuma explicação sobre Unesco x Clubes Unesco. Ao que parece, isso não importa. O importante, sim, é trazer um post sobre uma figura que gere buzz na internet para que possa ser compartilhada, gerando views, cliques etc. Você pode inclusive pensar que esse é o mesmo motivo para eu trazer o assunto a este blog (o que seria verdade se o texto encerrasse aqui).

     Ou não. No primeiro post eu citei sobre como a forma de consumo de informação tem mudado por conta da internet. Tomemos como exemplo Veja, que existe enquanto revista semanal de notícia desde o final da década de 1960. Ela era, à época, o que seria considerado de meio de informação verticalizado, ou seja, a informação chegava ao leitor e parava ali. Hoje, a comunicação é horizontalizada (o que não necessariamente significa algo melhor, apenas diferente). Tanto é que o próprio perfil da Unesco desmentiu no tweet. 

     Caso tratasse de uma revista semanal, a errata apareceria na próxima edição num cantinho escondido. Isso SE a premiação da atriz fosse motivo de pauta. Também, numa edição impressa, teriam os responsáveis mais tempo para checar a informação, ao invés de a captar in natura nas redes sociais das celebridades e fazer disso um post com nem 3 parágrafos.

     Já vi professores de jornalismo com ojeriza de misturar as produções da área com o entretenimento. Por outro lado, na internet, entretenimento e figuras da moda geram quantidades massivas de views e de compartilhamentos. Ora, o jornalismo na/da/para a internet ainda não encontrou um lugar para chamar de seu, tem flertado com outras instâncias e com isso, quem sabe, enfim descobrir a fórmula mágica para se manter autossustentável no plano digital. Mesmo que isso resulte em barrigadas - que por sua vez são passadas adiante com tom de troça: "olha o que esses imbecis fizeram". 

     Por um lado, a credibilidade, do veículo e do jornalista, é colocada em risco. Por outro, o marketing negativo pode gerar views no site (digo que pode porque muita gente só compartilha sem abrir o link, nós sabemos como é). Onde isso vai parar, ninguém sabe. E que venha o próximo grande post, a ser buzzificado, compartilhado, escrachado e desinformado.

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